segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Caso do Espelho



    Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata.
   Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora.  
   O homem abriu a boca. Apertou os olhos. Depois gritou, com o espelho nas mãos:
   — Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui?
   — Isso é um espelho — explicou o dono da loja.
   —Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai.
   Os olhos do homem ficaram molhados.
   — O senhor... conheceu meu pai? — perguntou ele ao comerciante.
   O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira.
   — É não! — respondeu o outro. — Isso é o retrato do meu pai. É ele sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito?
   O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho.
   Naquele dia, o homem que não sabia quase nada entrou em casa todo contente. Guardou, cuidadoso, o espelho embrulhado na gaveta da penteadeira.
   A mulher ficou só olhando.
   No outro dia, esperou o marido sair para trabalhar e correu para o quarto. Abrindo a gaveta da penteadeira, desembrulhou o espelho, olhou e deu um passo atrás. Fez o sinal da cruz tapando a boca com as mãos. Em seguida, guardou o espelho na gaveta e saiu chorando.
   — Ah, meu Deus! — gritava ela desnorteada. — É o retrato de outra mulher! Meu marido não gosta mais de mim! A outra é linda demais! Que olhos bonitos! Que cabeleira solta! Que pele macia! A diaba é mil vezes mais bonita e mais moça do que eu!
   — Quando o homem voltou, no fim do dia, achou a casa toda desarrumada. A mulher, chorando sentada no chão, não tinha feito nem a comida.
   — Que foi isso, mulher?
   --- Ah, seu traidor de uma figa! Quem é aquela jararaca lá no retrato?
   — Que retrato? — perguntou o marido, surpreso.
   — Aquele mesmo que você escondeu na gaveta da penteadeira!
   O homem não estava entendendo nada.
   — Mas aquilo é o retrato do meu pai!
   Indignada, a mulher colocou as mãos no peito:
   — Cachorro sem-vergonha, miserável! Pensa que eu não sei a diferença entre um velho lazarento e uma jabiraca safada e horrorosa?
   A discussão fervia feito água na chaleira.
   — Velho lazarento coisa nenhuma! — gritou o homem, ofendido.
   A mãe da moça morava perto, escutou a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. Encontrou a filha chorando feito criança que se perdeu e não consegue mais voltar pra casa.
   — Que é isso, menina?
   — Aquele cafajeste arranjou outra!
   — Ela ficou maluca — berrou o homem, de cara amarrada.
   — Ontem eu vi ele escondendo um pacote na gaveta lá do quarto, mãe! Hoje, depois que ele saiu, fui ver o que era. Tá lá! É o retrato de outra mulher!
   A boa senhora resolveu, ela mesma, verificar o tal retrato.
   Entrando no quarto, abriu a gaveta, desembrulhou o pacote e espiou. Arregalou os olhos. Olhou de novo. Soltou uma sonora gargalhada.
   — Só se for o retrato da bisavó dele! A tal fulana é a coisa mais enrugada, feia, velha, cacarenta, murcha, arruinada, desengonçada, capenga, careca, caduca, torta e desdentada que eu já vi até hoje!
   E completou, feliz, abraçando a filha:— Fica tranqüila. A bruaca do retrato já está com os dois pés na cova!

(Versão de conto popular por Ricardo Azevedo)
Imagem da web

A Construção do Texto

O conto popular em prosa
Você leu uma história que é a versão escrita por Ricardo Azevedo de conto popular. Vamos conhecer melhor esse gênero de texto, analisar a forma como foi construído, sua organização, sua linguagem.

1. Narrativa em prosa

O conto lido é uma narrativa em prosa. Dizemos que um texto está em prosa quando está organizado em frases contínuas formando parágrafos.

• Quantos parágrafos tem o texto lido? Não se esqueça de que o parágrafo pode também começar por travessão, sinal que introduz a fala do personagem.

2. Momentos da Narrativa
Os momentos de uma narrativa tradicional podem ser organizados da seguinte maneira:

Situação inicial: situação de equilíbrio
Conflito: motivos que desencadeiam a ação da história.
Clímax do conflito: momento de maior tensão da história.
Desfecho: final e resolução do conflito

• 1. Identifique no conto lido os parágrafos correspondentes aos momentos da narrativa e escreva-as.

• 2. Se você tivesse que explicar para alguém o que é um conto popular, o que diria?

1. Personagens

As histórias de tradição oral passam de boca em boca. Tanto o contador como o ouvinte irão dar mais atenção aos fatos que ao nome dos personagens. Assim, as personagens geralmente são identificadas por meio de uma característica e não pelo nome.
Por isso, no conto popular, é comum as personagens não terem um nome próprio.

• Como são identificadas as personagens do conto lido?

2. Tempo

As histórias de tradição oral passam de uma geração para outra e assim acabam não sendo localizadas num tempo determinado.

• Copie do texto duas expressões que indicam que o tempo em que os fatos acontecem é indeterminado.

3. Espaço

As histórias contadas oralmente se espalham com muita facilidade de um lugar para outro. Por isso, além da indeterminação do tempo, outra característica das histórias de tradição oral é que os fatos ocorrem em espaços, lugares também indeterminados, indefinidos.

• Copie do texto uma expressão que mostra que os fatos se passam em lugar indeterminado.

Criar um desfecho
Quem conta um conto... pode criar outro desfecho.

Em duplas.

• A) Criem um desfecho diferente para o conto o caso do espelho.

• B) Contem a seus colegas como vocês terminaram o conto.

• C) Ouçam o desfecho criado por seus colegas










quinta-feira, 9 de setembro de 2010

CONSPIRAÇÃO

  
 Sempre que faltava um professor, dona Marta o substituía. Lecionava canto; a disciplina era considerada de importância secundária e, além disso, suas aulas eram péssimas – mas, em compensação, ela estava sempre disponível. De manhã, de tarde, de noite. Morava no colégio, praticamente. Quando chegávamos pela manhã, já estava sentada na sala dos professores, sempre com aquele sorriso meio sofrido, meio idiota; e ficava na escola mesmo depois que saíam os últimos alunos do noturno. Esperava um irmão que vinha buscá-la; como ninguém nunca tinha visto esse irmão, circulava a história de que ela dormia no sótão do colégio. Que comia lá, era certo. Ao meio-dia ia para um banco, no pátio, tirava de sua sacola um sanduíche e ficava mastigando melancólica.
   Um dia não veio a professora de português. Trouxeram dona Marta. Entrou na sala de aula, no seu andar vacilante, cumprimentou-nos, pediu desculpas pela ausência da colega. E anunciou que não nos faria cantar: estava rouca (coisa difícil de comprovar; sua voz tinha normalmente um timbre enrouquecido. O que era motivo de deboche: Goela Enferrujada era o seu apelido. Que ela ignorava, ou fingia ignorar).
   - Vamos fazer uma coisa diferente – disse. Tentou fazer um ar misterioso, cúmplice: - Vamos fazer de conta que estamos na aula de português, certo? Quero que vocês escrevam uma composição. Sobre qualquer tema, à escolha de vocês. Depois escolherei cinco alunos, ao acaso, lerão suas composições e o melhor ganhará um prêmio.
   Fez uma pausa e acrescentou:
   - Aqui está.
   Tirou da bolsa um chocolate. Uma barra de chocolate ordinário, pequena. E aquela barra ela segurou no ar pelo menos um minuto, sorrindo, feliz.
   O nosso era um colégio de filhos de gente rica. Chocolate, bombons, balas, tínhamos todo dia, a qualquer hora. Chocolate? Ouvi risinhos de mofa. Mas nesse momento o diretor apareceu à porta e lançou um olhar severo. Pusemo-nos imediatamente a trabalhar.
   Eu tinha certeza de que não seria o escolhido para ler. Nunca era escolhido para nada, e nem queria. Isso, e mais o fato de que na época andava lendo muito livro de mistério, talvez explicasse o título\da minha composição, “Conspiração contra os cegos”. Nela eu descrevia um distante país governado por uma casta de cegos; ministros cegos, generais cegos, todos oprimindo cruelmente o povo. Que não podia se revoltar, e nem sequer conspirar: os ouvidos aguçadíssimos dos cegos captavam qualquer murmúrio de descontentamento. Mesmo assim líderes resolutos conseguiam organizar uma composição, baseada só na palavra escrita. Livros eram publicados contra os cegos, revistas, jornais. Toda articulação anticegos era feita por escrito. Finalmente a oligarquia era derrubada e um novo rei assumia. Seus primeiros atos: destruir as impressoras, fechar os jornais e declarar ilegal a alfabetização.
   Terminei a composição e fiquei quieto, aguardando. Os outros iam terminando também. Prontos?, perguntou ela. Todos responderam que sim. Menos eu. Fiquei quieto. E, contudo, foi para mim (muito azar!) que ela apontou o seu dedo vacilante.
   - Você... Como é o seu nome?
   - Oscar – respondi (mentira; meu nome é Francisco Pedro; alguns risinhos abafados se ouviram, mas eu fiquei firme).
   - Bonito nome – ela, sorridente. – Leia sua composição para nós, Oscar.
   Não havia como escapar. Dei uma olhada na folha de papel e, depois de uma pequena hesitação, anunciei:
   - Escrevi sobre um passeio no campo.
   Ela sorria, aprovadora. Contei então sobre um passeio no campo. Descrevi a paisagem: as árvores, o riacho, as vacas pastando sob um céu muito azul. Concluí dizendo que um passeio no campo nos ensinava a amar a natureza.
   Muito bonito, ela disse, quando terminei. E acrescentou, emocionada:
   - Eu gostaria de guardar a sua composição.
   Não vale a pena, eu disse. Mas eu quero, insistiu ela. Não vale a pena, repeti. Ela riu: ora, Oscar não seja modesto, me dê a sua composição.
   - A composição é minha – eu disse – e faço com ela o que quero. Esta aula era para ser de canto, não de português. A senhora não tem o direito de me exigir nada.
   - Vou pedir pela última vez – disse ela, e sua voz agora tremia – quero sua composição. Por favor.
   Peguei a folha de papel e rasguei-a em meio a um silêncio sepulcral.
   Não disse nada, mas todos podiam ver as lágrimas correndo-lhe pelo rosto. O que me surpreendeu: eu não sabia, naquela época, que os cegos podem chorar.

Moacyr Scliar. Contos reunidos. S. Paulo: Cia das Letras, 1995.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

DESPEDIA DO TREMA


  Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema.Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüiféros, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos.
   Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!
   741O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disse que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé.
   Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, faz endo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K, o W "Kkk" pra cá, "www" pra lá.
   Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou - me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar.
   Nos vemos nos livros antigos. saio da língua para entrar na história.

Adeus,
Trema.

                             Recebi esse texto por e-mail. Uma mãe de uma aluna que me enviou. Adorei o texto. Pena que ela não colocou o autor

terça-feira, 31 de agosto de 2010

TEXTO MAIS QUE VERDADEIRO

   O ano é 2.210 D.C. – ou seja, daqui a duzentos anos – e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
   – Vovô, por que o mundo está acabando?
   A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:
   - Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.
   – Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?
  O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavamas pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.
    – Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
   – Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.
   – E como foi que eles desapareceram, vovô?
   – Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados.
   Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa.
    Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você” ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”...
    Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas.
   Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”.
   Os professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral –que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse.
    “Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas…
   E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular.
   Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de ideias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas.
   Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério.
Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão.
   Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor.
   As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade.
   Ah! Mas teve um fator chave nessa história toda.
   Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos perseguiram alguns professores, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal da república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de “educação libertadora” que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos…
   Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior – os milicos ou os tais dos subversivos.
   – Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?
   – Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais…

AUTOR DESCONHECIDO



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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Folclore Brasileiro

Festas, comidas e lendas tradicionais do Brasil
Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação


       O batizado de Macunaíma (detalhe), de Tarsila do Amaral, baseada em obra de Mário de Andrade

    O folclore é o conjunto das criações de uma comunidade cultural, baseadas nas tradições de um grupo ou de indivíduos, que expressam sua identidade cultural e social, além dos costumes e valores que se transmitem oralmente, passando de geração em geração.
   A palavra folclore foi utilizada pela primeira vez num artigo do arqueólogo William John Thoms, publicado no jornal londrino "O Ateneu", em 22 de agosto de 1846 (por isso 22 de agosto é o dia do folclore). Ela é formada pelos termos de origem saxônica: "folk" que significa "povo" e "lore" que significa "saber". Portanto o "folklore" é o saber do povo ou a sabedoria popular. No Brasil, a palavra adaptada tornou-se "folclore".
   Em todas as partes do mundo, cada povo tem seu folclore, sua forma de manifestar suas crenças e costumes. O folclore se manifesta na arte, no artesanato, na literatura popular, nas danças regionais, no teatro, na música, na comida, nas festas populares como o carnaval, nos brinquedos e brincadeiras, nos provérbios, na medicina popular, nas crendices e superstições, mitos e lendas.

Mitos e lendas

   As lendas misturam fatos reais e históricos com a fantasia e procuraram dar explicação aos fatos da vida social de uma determinada comunidade. Os mitos, tão antigos quanto a própria humanidade, são narrativas que possuem um forte simbolismo e foram criados pelos povos primitivos para explicar as coisas que não entendiam, como os fenômenos da natureza.
   No Brasil, o folclore foi resultado da miscigenação de três povos (indígena, português e africano) e da influência dos imigrantes de várias partes do mundo. Por isso, nosso país tem uma tradição folclórica variada, rica e muito peculiar. Em cada região brasileira, o folclore apresenta semelhanças e diferenças.

Câmara Cascudo: pesquisador do folclore

   Um grande estudioso do folclore nacional foi Luís da Câmara Cascudo, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte em 1898 e autor de mais de 150 livros. Ainda hoje, a obra de Câmara Cascudo é uma referência imprescindível para se tratar do folclore, até porque diversas expressões folclóricas brasileiras por ele documentadas já desapareceram e não podem mais ser observadas.
   O folclore, em especial a partir do século 20, serviu de base para a produção da arte culta brasileira. Os exemplos estão presentes em todas as artes. O pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi fez das bandeiras das festas juninas um elemento freqüente de seus quadros e gravuras. O compositor fluminense Villa-Lobos aproveitou-se de temas do folclore em sua obra musical.

O folclore na literatura

   Na literatura, há no mínimo três autores de importância indiscutível que se utilizaram de elementos da cultura popular. O paulista Mário de Andrade, grande estudioso do folclore, escreveu sua obra-prima, "Macunaíma", reunindo com olhar irônico e crítico inúmeras narrativas do folclore brasileiro.
   O mineiro João Guimarães Rosa, autor de "Grande Sertão: Veredas" - um clássico da literatura nacional - tematiza a vida do sertanejo e trabalha tanto elementos característicos de narrativas folclóricas, quanto a própria forma sertaneja de uso da língua portuguesa. Da mesma maneira, o paraibano Ariano Suassuna compôs uma ampla obra teatral baseada na tradição folclórica nordestina. Como exemplo, podem-se citar "O Auto da Compadecida" ou "A Pena e a Lei", sem falar no monumental "Romance da Pedra do Reino".

O folclore no cinema e na TV

   Convém lembrar que o folclore brasileiro - ligado ao universo rural, pois a industrialização do país é recente, em termos históricos - chegou a influenciar nossos meios de comunicação de massa. O ator e diretor Amácio Mazzaropi levou o caipira do interior paulista para as telas do cinema. O animador de programas de auditório Abelardo Chacrinha Barbosa fez enorme sucesso na TV utilizando-se elementos de festas populares do Nordeste, como as disputas entre cordões (o encarnado e o azul), que eram mediados por um velho, a quem Chacrinha personificava.
   Nos meios de comunicação de massa, como o cinema, a estética dos circos mambembes que percorriam o interior do país também podem ser encontradas em produções cinematográficas inusitadas como os filmes de terror de José Mojica Marins, conhecido como Zé do Caixão.

Folclore e música

Em matéria de música folclórica, também chamada de "música de raiz", Inezita Barroso é uma grande pesquisadora. Você pode ouvi-la na Rádio UOL clicando nos links abaixo:

Extraído do site www.uol.com.br/educação

domingo, 1 de agosto de 2010

HERÓI DE TODO DIA


    Já percebeu que nas histórias em quadrinhos e nos desenhos animados o herói está sempre disposto a salvar, a ajudar, a socorrer?
    Nessas histórias, o personagem herói é sempre incansável, não mede esforços para ajudar, e é capaz de esquecer das suas vontades e desejos quando precisa agir.
    Porém, você se deu conta de que esses heróis também existem no mundo real? Já conseguiu perceber que a vida está repleta desses grandes heróis?
    Como alguns heróis dos quadrinhos, esses também, que encontramos no nosso cotidiano, não fazem questão da fama e do sucesso. Eles preferem o prazer do anonimato, onde a glória e a fama são plenamente substituídas pelo sentimento do dever cumprido.
    São heróis nossos de cada dia, todos aqueles capazes de chegar ao lar, após um dia intenso, onde o peso do mundo parece descer sobre os ombros, e ainda ter disposição para brincar de pega-pega ou de cavalinho, com os pequenos que os esperam ansiosos.
    Não há como não chamar de heróis aqueles capazes de deixar de lado relatórios, e-mails e trabalhos, abrindo mão dos compromissos profissionais levados para casa, somente para escutar as aventuras e sonhos do universo infantil.
    É um heroísmo ser capaz de não perder a sensibilidade com as lutas da vida e os compromissos que se sucedem, e entender que o tempo gasto para responder sobre a cor do céu ou as dúvidas mais surpreendentes da vida não é perda de tempo, mas investimento na vida daquele que ama.
    Esses heróis são capazes de ensinar com a leveza da alma e a firmeza do agir, sobre os valores da vida, sobre a honestidade, o respeito ao próximo e a retidão do caráter como indispensáveis para a vida.
    E para nos ensinar essas coisas, como todo bom herói, esses não gostam do discurso, da frase feita ou do grande diálogo. Ensinam-nos pela melhor pedagogia: a do exemplo.
    Nossos heróis anônimos são capazes de dar uma escapadinha da correria do cotidiano só para ver um jogo de bola, ou uma singela apresentação musical, ou uma declamação de poesia que seja... Mesmo que ela tenha não mais que quatro versos.
    Fazem não por eles, mas porque sabem que, para seus filhos, isso é muito importante.
    E fazem tudo isso porque sabem que eles não são heróis feitos para salvar vidas. Eles entenderam, desde há muito, que Deus os fez heróis diferentes. São heróis que constroem vidas.
    Por isso são capazes de achar importante as coisas mais simples, quando as coisas simples são importantes para seus filhos.
    São capazes de esquecer seu cansaço, compromisso ou o seu lazer, para fazer do lazer dos filhos, o seu lazer.
    Eles são heróis porque entendem que tudo isso que fazem hoje, talvez os filhos não entendam, nem consigam reconhecer e agradecer, mas um dia fará toda a diferença.
    Eles, os nossos heróis, nunca se cansam e nunca desistem da sua poderosa missão. Isso porque dentro deles há um combustível mágico que os move, tão mágico que quanto mais eles usam, mais se multiplica: o combustível do amor.
    E alguns de nós ainda temos a grande felicidade de chamar esses heróis por uma outra palavra: pai.

(texto extraído do site Momento de Reflexão)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O TRAJE



   Nunca nos lembramos desse nosso traje quotidiano que é a linguagem. Muitos a usam como trapos mas, se tomassem consciência disso, ligeiro tratariam de melhorar, caprichar, conseguir uma vestimenta mais adequada.
    Por que será que somos displicentes com esse instrumento tão nosso, o que mais empregamos, aquele que até crianças e analfabetos manejam a vida inteira?
    Talvez nos tenhamos acostumado demais com ele. É demasiadamente nosso, como um braço, um olho, e nunca chegamos a nos dar realmente conta de que esse braço é muito curto, o olho meio vesgo ou míope...
    Não falo na linguagem oral, nessa comunicação espontânea que obedece a leis próprias, que vão do menor esforço à coerção social. Falo da linguagem escrita, essa que os analfabetos não manejam, mas que muito doutor esgrime como se não soubesse além da cartilha...
    Nem precisamos procurar os mais ignorantes. Abre-se jornal, abre-se revista (de cultura também, sim senhores!) e os monstrinhos nos saltam aos olhos.
    Pontuação? Ninguém sabe. Vírgulas parecem derramadas pela página por algum duende maluco, que quisesse brincar de fazer frases ambíguas, pensamentos tortos, expressões esmolambadas.
    Verbos? "Deitei-vos", "intervido", "mantesse" são mimos constantes. Não há sujeito que concorde com verbo numa página de fio a pavio. Lá pelas tantas, um ouvido deseducado, um escriba relaxado solta as maiores heresias.
    E a ortografia? Acreditem ou não, ainda agora ouço universitários e professores afirmando que "acento, para mim, não existe mais!"
    Pobres alunos de tão desanimados ou iludidos mestres: lá vêm as crianças para casa trocando acentos como bêbados trocam pernas.
    Todas essas pessoas: estudantes, professores, jornalistas, intelectuais, morreriam de vergonha se fossem apanhados em público de cuecas ou trapos. Mas, olhe lá, a linguagem escrita de muita gente por aí não vai além duma tanguinha de Adão, e, muito mal colocada... deixa à mostra um bom pedaço de vergonha.

Lya Luft

Dados sobre a autora:
 Lia Fett Luft masceu em Santa Cruz do Sul(RS) em 1938. Além de escritora, também é tradutora. Escreve poemas, crônicas e romances. Publicou, entre, outros livros, Canções de Limiar, Flauta Doce, As Parceiras, A Asa Esquerda do Anjo, Reunião de Fámília, O Quarto Fechado e Perdas e Ganhos.


domingo, 25 de julho de 2010

Machado de Assis - Por que lê-lo



Márcia Lígia Guidin*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação



   Machado de Assis nasceu em 1839 e morreu em 1908. Foi um escritor do tempo de dom Pedro 2o. Por que, então, ler as obras de alguém que morreu há quase cem anos? Na verdade, poderíamos dar muitas razões acadêmicas e culturais: ele é o maior símbolo do realismo brasileiro, movimento que introduziu no país; fundou a Academia Brasileira de Letras, era genial, veio das classes baixas etc.
   Mas o fato é que a melhor razão as pessoas não dizem: ler Machado é muito engraçado. Suas histórias são irônicas, reveladoras de coisas que todo mundo sabe, mas não comenta... Elas falam de valores morais que todos criticam, mas têm.
   Quando alguém diz que Machado é "cético", é disso que está falando: esse ótimo escritor não acreditava nas boas intenções, na bondade, na generosidade, no amor romântico, na eterna lealdade.

Máscaras da sociedade

   Machado desmascarou com sutileza a falsidade de homens e mulheres de sua época de, sua cidade, de nosso país. Só que as situações e temas de que trata em sua obra são tão universais (amor, adultério, egoísmo, cinismo, apadrinhamentos, pobres e ricos, casamentos por interesse etc.), que nosso escritor pode ser lido em qualquer outro país. Ou seja, temos um escritor brasileiro (na época em que havia poucos), tão importante quanto Eça de Queirós, Dostoiévski, Flaubert.
   Machado de ASsis não imitava outros escritores, era original. A personalidade desse autor era tão irônica, tão observadora da realidade, que temos o riso de canto de boca a cada frase em que prestamos melhor atenção.
   Essa conversa de que só entenderemos Machado depois de adultos é besteira. O que existe é falta de ajuda de outros leitores (professores, pessoas mais velhas) para começarmos a ler e apreciar esse escritor universal.

O defunto Brás Cubas

   Por exemplo, um de seus mais famosos personagens, o solteirão Brás Cubas, do romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) resolve contar sua vida e seus amores depois da sua morte. Ele está entediado na eternidade, não tem o que fazer, é um defunto que vira autor (é, portanto, um defunto autor e não um autor defunto). Como Cubas quer ser original, diz que vai começar sua história narrando sua morte e não o nascimento. Moisés, o grande Moisés, começou pelo começo, diz ele; para ser original, então, vai começar pelo fim.
   Perceba: só esse início (a primeira página do romance) já é suficiente para notarmos que esse defunto quer debochar de nós, leitores. E ele vai em frente: diz que havia poucas pessoas em seu enterro, mas um amigo fez um belo discurso à beira de sua cova. Depois, como se não percebesse o que diz, afirma: "Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices" que lhe deixei. Nós, leitores, rimos ao ler a frase, pois está claro que o amigo só fez o discurso (aliás, ridículo, vá ler!) porque havia recebido uma pequena herança. Sugerir o contrário do que de fato diz (ou seja, construir a ironia) é uma especialidade machadiana.

Ironia e linguagem

   E nós continuamos a ler o tal romance; com um pouco de irritação com esse narrador estranho e arrogante, mas continuamos. Adiante, Brás Cubas, contando sua juventude (era na verdade um playboy rico e desocupado), apaixona-se por uma prostituta de luxo, com quem gasta muito dinheiro (do pai, é claro). Este ficará furioso, mas Brás Cubas, fingindo certa ingenuidade, nos conta: "Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis". Esta curta frase é maravilhosa, pois, sem denegrir a moça diretamente, o protagonista nos afirma que o amor dela era profissional, interesseiro, por dinheiro. Marcela não o amava: o autor construiu outra ironia, sugerindo que entendêssemos o contrário do que disse.
   E esse romance, tão famoso, vai por aí afora. É só diversão, embora, é claro, com um vocabulário do século 19, o que nem sempre é simples para nós. Na verdade, o tal Brás Cubas se exibe até no uso do vocabulário, ele é pedante. Se prosseguirmos na leitura, conseguimos rir muito, pensando que os vários episódios vividos naquela sociedade (por ele e por todos), são os mesmos nos tempos de hoje. E muitas ações sociais e morais são as mesmas... O pai de Brás Cubas, por exemplo, era um exibicionista. Dava festas muito ricas para 'fazer barulho', para aparecer na sociedade. Quanta gente faz isso ainda hoje, não? Existem até revistas especializadas nessa exibição de ricos e famosos...

Humor inglês

   Acabamos percebendo que as pessoas são as mesmas, que o mundo da hipocrisia e farsa social não mudou. Esta sensação é parte do pessimismo machadiano de que tanto nos falam os livros Não gargalhamos, apenas rimos em silêncio, com o canto da boca, para nós mesmos. E este sinal é o famoso humor inglês de que falam os estudiosos: as piadas, as ironias são todas assim, inglesas; o defunto diz o que quer, fingindo não dizer.

   Um dos momentos mais cruéis (sim, a ironia às vezes é cruel com os personagens) se chama "A flor da moita". Sabe por quê? Quando pequeno, Brás havia presenciado um beijo às escondidas que um poeta casado dava numa dama solteirona atrás de uma moita da mansão de seus pais. Pois bem, anos depois, conheceu a filha bastarda dessa mesma senhora, a menina Eugênia. Era linda, educada, pura, mas coxa (manca). Eugênia ficou então sendo "a flor da moita" porque concebida no amor ilícito. Por isso teria defeitos. Perceba que Brás é grosseiro, vulgar e deseducado. Mas quem vai punir um defunto? Quem?

Quem inventou Brás Cubas?

   Porém: Quem inventou Brás Cubas, que narra em primeira pessoa toda sua história? O verdadeiro autor da obra é Machado de Assis. Pensando melhor, vemos que esse Joaquim Maria Machado de Assis, fluminense, mulato, epilético, casado com Carolina, sem filhos, e muito famoso no Rio de Janeiro inventou um modo muito original de pôr na " boca" de um defunto inventado coisas que ele, Machado, queria dizer.
Quer dizer: o narrador Brás Cubas não é nem nunca será Machado. Mas Machado, usando seu personagem, ironiza a sociedade em que viviam os ricos no Rio de Janeiro.



terça-feira, 20 de julho de 2010

FELIZ DIA DO AMIGO!


O que é um verdadeiro amigo:


Disse um soldado ao seu comandante:
-"O meu amigo não voltou do campo de batalha. Meu comandante, solicito autorização para ir buscá-lo."
Respondeu o oficial:
-"Autorização negada!" "Não quero que você arrisque a vida por um homem que, provavelmente, está morto!"
O soldado ignorando a proibição saiu e uma hora mais tarde voltou mortalmente ferido, transportando o cadáver do seu amigo.
O oficial estava furioso:
-"Eu não lhe disse que ele estava morto?!"
-"Diga - me, valia a pena ir até lá para trazer um cadáver?"
E o soldado, moribundo, respondeu:
-"Claro que sim, meu comandante!
Quando o encontrei, ele ainda estava vivo e disse-me:
- Tinha a certeza que virias!"

(autor desconhecido)

"Um amigo é aquele que chega quando todos já se foram."

domingo, 18 de julho de 2010

30 anos sem o poetinha Vinícius De Moraes

    Há trinta anos Vinícius foi para uma outra dimensão. Diplomata, poeta, compositor e dramaturgo, ele era movido pela paixão e dizia que a coisa mais triste na vida de um homem era o desamor.
    Vinícius viveu o raro privilégio de ficar jovem com a idade. A aproximação com a música popular e com a cultura negra lhe rendeu o apelido de Poetinha, pois os críticos o considerevam um poeta de menor importância. A história de sua carreira encarregou-se de reverter esse conceito.
    O ultimo 09 de julho marcou os 30 anos sem Vinícius de Moraes e para relembrar esta data deixo aqui um poema musicado que muito marcou os meus primeiros anos de casada.

Vinicius De Moraes e Toquinho - Para Viver Um Grande Amor

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Poemas

             
            Varal de Poemas
Tema: A POESIA                        
Local: INSTITUTO DE EDUCAÇÃO GASTÃO GUIMARÃES - SALA DO 9º ANO MATUTINO

    Realizamos um varal de poemas durante a unidade. Vários textos poéticos produzidos pelos alunos do 9º ano foram expostos na própria sala de aula. Fizemos um círculo de leitura pelo varal e deixamos as produções para que os alunos dos turnos opostos pudessem apreciá-los. Para nossa surpresa, quando chegamos no dia seguinte, as produções estavam todas rasgadas. Por esse motivo, não tirei nem fotos do nosso trabalho.
   Fizemos uma avaliação oral dos textos e os alunos escolheram esses poemas como os mais apreciados:

                                                        UM HUMILDE COMEÇO

                                   Com o lápis na mão
                                   O horizonte começa a nascer
                                    Palavras vêm e vão
                                    Sem sabermos o porquê.

                                    A teoria fica de lado
                                    O coração tenta se abrir
                                     E pra entender o comunicado
                                    Basta apenas sentir.
                      
                                                  Autora; Raissa Ferreira Babolim

                                                                POESIA É COISA DE LOUCO

                                      Nunca entendi a poesia.
                                      Só sei que, ao lê-la,
                                      sinto profunda alegria
                                      ou eterna tristeza.
                                   
                                     Poesia é coisa de louco
                                     Ela mexe com o nosso eu
                                     com nossas emoções
                                     com os nossos sentimentos
                                      com nossas feridas

                                      Poesia para mim não é tudo
                                      Mas tudo se resume em poesia
                                      Isso é loucura? Não!
                                
                                      Amar é poesia.
                                      Sofrer é poesia.
                                      Viver é poesia.
                                      E morrer é poesia.

                                      Quisera eu não saber
                                       o que poesia.


Autora: Amanda Carolina Silva Santana


A IDADE DAS PALAVRAS

             A IDADE DAS PALAVRAS

                                                            Walcyr Carrasco

    Já cansei de ver gente madura falando gíria para parecer jovem. O trágico é que, em geral, a gíria é velha! Verbos, adjetivos e substantivos possuem maior permanência. Gíria é volátil.
Terrível ver uma senhora madura e plastificada dizendo:
   - Eu sou prafrentex!
   O termo foi usado lá pela década de 60 para dizer que alguém aceitava compartamentos mais ousados, tipo viajar no fim de semana para a praia com um grupo de amigos, o máximo de liberdade imaginável até então. É passado. Assim como as variações para falar de homem bonito. Houve época que era "pão", lá pelos anos 80 virou "lasanha". Agora se usa gato, se não estou atrasado. Volta e meia noto uma cinquentona exclamar à passagem de algum atleta;
   - Ai que pão! 
   Esse é o mal das gírias. Marcam a juventude de cada um. O tempo passa. Fica difícil mudar o modo de falar. Às vezes ainda ouço um "é uma brasa, mora" usado por Roberto Carlos nos tempos do programa Jovem Guarda, início dos 60. Lembro do sucesso de "boko moko", criado por uma marca de refrigerante para identificar quem era cafona e não tomava a tal bebida. Caiu na boca do povo. Cafona vale? Ou devo dizer "out", como na década de 90?
   As palavras expressam sua época. Certa vez estava escrevendo uma novela passada nos anos 20 e coloquei a expressão "vou tirar você do meu caderninho". Meu pesquisador me orientou:
   - Naquele tempo poucas pessoas tinha telefone em casa. Não se falava assim.
   O tal "caderninho" correspondia à agenda telefônica. Só passou a ser comum quando o aparelho se tornou mais popular.
   Para escrever outra novela de época, passada no século XVIII, eu recorria ao raciocínio puro e simples para definir o modo de falar. Descobri que "comer a tripa a forra" tinha a ver com o período da escravidão. O negro liberto era "forro". Deduzi que significava comer à vontade.
   Outro dia, vendo uma reportagem de televisão, observei uma família simples com o telefone de teclas. Todo mundo tem. Até algum tempo atrás se discava o telefone. Hoje se tecla um número.
   Reconheço. Tenho saudade de certos termos. Lembro do meu irmão mais velho dizendo "que carro joia!". E "olha o broto!" Ou dos amigos dos anos 70, quando fiz faculdade. Frequente era ouvir "tou numas com ela" equivalente, guardadas algumas proporções, ao ficar de hoje em dia.
   Que adolescente aceitaria hoje ir a um "mingau dançante"? Vão para a balada, para a "night". Aliás, a maioria foge de mingau e de qualquer delícia que engorde!
   Muita gente odeia gíria. Alguns a consideram um dialeto capaz de estraçalhar a língua. Esquecem-se de que, no seu tempo, também a usavam. Não é fácil acompanhar a sua evolução. Outro dia ouvi:
   - Eu deletei aquele sujeito da minha vida.
   É a versão mais atual para "tirei do meu caderninho". No computador, deletar é eliminar. apagar. Também se fala tranquilamente:
   - Eu estava casado, mas não estou mais.
   Não tem nada a ver com casamento formal, necessariamente. significa que o rapaz em questão viveu um relacionamento forte. Possivelmente, nem moravam sob o mesmo teto.
   Eu me confundo: não sei se ainda se fala "hipe" para indicar algo que no passado foi "in". Ou que alguém é "fashion" para dizer que está "nos trinques" como nos anos 80. Falar com um jeito antigo é pior do que botar calça boca de sino, ícone dos anos 60.
   Não há corte de cabelo, Botox ou plástica que resista. Gíria velha denuncia a idade mais do que um festival de rugas.

VEJA SP, Edição 1998, 07 de março de 2007, p. 130


  

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O VENENO DA FOFOCA

  
  Uma das manifestações mais negativas do segundo nível da intimidade é a fofoca. A fofoca se define como um boato irrelevante, muitas vezes sem fundamento e geralmente de natureza pessoal, sensacionalista ou íntima; pode ser também uma conversa trivial em que se tecem considerações sobre o caráter de outra pessoa.
    Todos nós fazemos fofoca. Alguns mais do que outros, mas a verdade é que todos já nos divertimos fofocando em algum momento. A fofoca proporciona uma certa satisfação adolescente de estar “por dentro” da situação. Nossos egos ficam inflados quando conseguimos contar a alguém algo que sabemos, mas que ele ignora e quer saber.
    A fofoca pode começar com fatos, mas em geral é reforçada muito depressa por especulações que pertencem ao reino da imaginação. O grave é que, com nossas especulações, podemos causar um mal imenso aos outros.
   Fofoqueiros são covardes e nunca são amigos de verdade. Um amigo de verdade está interessado em ajudar a nos tornarmos pessoas melhores, e certamente a fofoca não contribui em nada para isso. Muito pelo contrário: a fofoca diminui o caráter de quem a escuta e com freqüência causa danos irreparáveis à recuperação de quem é o seu alvo.
    Nunca fale de forma a fazer com que seu interlocutor pense mal de quem quer que seja. Só abra a boca quando isso for ajudar as pessoas a pensarem bem dos outros. Fale apenas quando as suas palavras puderem ajudar alguém a se tornar a melhor pessoa possível. Se não for assim, permaneça calado.
   Cada uma dessas quatro máximas exige enorme controle e disciplina. Porém, se você permitir que guiem a sua fala e as suas relações sociais, elas estarão contribuindo para o seu crescimento e para o daqueles com quem você convive.
    Nenhuma pessoa gosta que se fale dela pelas costas. Apesar disso, todos os dias estamos expostos a situações em que as pessoas falam sobre os outros sem pensar. Se quisermos manter nossa dignidade e defender nossa integridade, precisamos aprender a lidar com essas situações sociais com graça e firmeza.
    Se alguém estiver sendo espancado, espero que você não fique parado olhando. No mínimo, vá em busca de ajuda para impedir o espancamento. No entanto, todos os dias ficamos parados e não fazemos nada enquanto pessoas são espancadas verbalmente por outras. Pior ainda, nem sequer nos sentimos indignados.
    Para que a fofoca saia vencedora, basta isso: que homens e mulheres bem-intencionados não digam nada.
    Reflita sobre as seguintes maneiras de reverter uma situação de fofoca: estão falando mal de um amigo comum chamado Mike.
    Sua primeira tentativa pode ser simplesmente dizer: “Talvez a gente não conheça todos os fatos.” Se isso não mudar a conversa para um rumo mais positivo, prossiga: “Talvez seja bom conversar sobre isso da próxima vez que estivermos com Mike, para ele ter a oportunidade de dizer o que aconteceu de verdade.” E, se ainda assim não funcionar, acrescente: “Eu já fiz muitas coisas na vida que gostaria de não ter feito; talvez o Mike só tenha tido um momento de fraqueza.” Ou: “Talvez a gente deva dar a ele o benefício da duvida. Se fosse comigo, certamente ia querer que me dessem.” Se todas essas tentativas fracassarem, sempre ajuda lembrar: “Eu nunca vou me esquecer de como o Mike ia buscar meus filhos no treino todas as semanas, durante meses, e os levava para jantar quando minha mulher estava doente. Sempre serei grato a ele por isso.”
    Pense em como uma pequena fogueira pode atear fogo em toda a floresta. A língua também é uma fogueira. È muito fácil atingir a reputação de alguém de um modo irrecuperável. A fofoca consegue nos ferir de uma forma indescritível; ela leva pessoas desconhecidas a nos julgarem e nos nega a oportunidade de causar uma primeira boa impressão, porque esta foi formada pela fofoca que as pessoas escutaram.
    Como você se sente quando sabe que as pessoas falaram de você pelas costas?
    Eliminar a fofoca de nossas vidas não é tarefa fácil. Talvez você se surpreenda ao constatar a freqüência com que fazemos fofoca sobre os outros ou participamos de uma conversa onde estão falando da vida alheia. Nosso desafio é aprender a arte de evitar situações desse tipo. E é surpreendentemente difícil evitar a fofoca, mesmo quando se faz um esforço consciente para isso.
    Talvez os grandes líderes espirituais do passado possam nos ajudar nesse aspecto. Uma das grandes disciplinas espirituais existentes em quase todas as religiões, tradicionais ou não, é o jejum. O jejum é geralmente associado à comida e é realizado para nos libertar dos anseios e da escravidão do corpo. O jejum traz clareza à mente e ao espírito e nos permite ver quem somos e quem somos capazes de ser.
    Apesar de ser uma pratica espiritual geralmente relacionada à comida, o jejum pode ser aplicado a qualquer coisa. Talvez você queira tentar fazer o seguinte exercício: na próxima semana, faça jejum de falar sobre os outros. Faça jejum de fofocas. Não escute nem crie fofocas e, durante semanas, meses e anos, faça os outros saberem que esse assunto é inaceitável quando você está presente.
    Todas as vezes que se sentir tentado a comentar sobre a vida dos outros, pare um instante e pergunte-se: será que isso vai me ajudar ou ajudar alguém a se tornar a melhor pessoa possível?

                                  (Texto extraído do livro: Os sete níveis da intimidade, autor Matthew Kelly)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

CRÔNICA: A ESTRANHA PASSAGEIRA

   - O senhor sabe? É a primeira vez que eu viajo de avião. Estou com zero hora de vôo - e riu nervosinha, coitada.
     Depois me pediu que eu me sentasse ao seu lado, pois me achava muito calmo e isto iria fazer-lhe bem. Lá se ia a oportunidade de ler o romance policial que eu comprara no aeroporto, para me distrair na viagem.  Suspirei e fiz o bacano respondendo que estava às suas ordens.
    Madama entrou no avião sobraçando um monte de embrulhos, que segurava desajeitadamente.  Gorda como era, custou a se encaixar na poltrona e arrumar todos aqueles pacotes. Depois não sabia como amarrar o cinto e eu tive que realizar essa operação em sua farta cintura.
   Afinal estava ali pronta para viajar. Os outros passageiros estavam já se divertindo às minhas custas, a zombar do meu embaraço ante as perguntas que aquela senhora me fazia aos berros, como se estivesse em sua casa, entre pessoas íntimas. A coisa foi ficando ridícula:
   - Para que esse saquinho aí? - foi a pergunta que fez, num tom de voz que parecia que ela estava no Rio e eu em São Paulo.
   - É para a senhora usar em caso de necessidade - respondi baixinho.
  Tenho certeza de que ninguém ouviu minha resposta, mas todos adivinharam qual foi, porque ela arregalou os olhos e exclamou:
    - Uai... as necessidades neste saquinho? No avião não tem banheiro?
   Alguns passageiros riram, outros - por fineza - fingiram ignorar o lamentável equívoco da incômoda passageira de primeira viagem. Mas ela era um azougue (embora com tantas carnes parecesse mais um açougue) e não parava de badalar. Olhava para trás, olhava para cima, mexia na poltrona e quase levou um tombo, quando puxou a alavanca e empurrou o encosto com força, caindo para trás e esparramando embrulhos para todos os lados.
    O comandante já esquentara os motores e a aeronave estava parada, esperando ordens para ganhar a pista de decolagem. Percebi que minha vizinha de banco apertava os olhos e lia qualquer coisa. Logo veio a pergunta:
   - Quem é essa tal de emergência que tem uma porta só pra ela?
   Expliquei que emergência não era ninguém, a porta é que era de emergência, isto é, em caso de necessidade, saía-se por ela.
   Madama sossegou e os outros passageiros já estavam conformados com o término do "show". Mesmo os que mais de divertiam com ele resolveram abrir os jornais, revistas ou se acomodarem para tirar uma pestana durante a viagem.
   Foi quando madama deu o último vexame. Olhou pela janela (ela pedira para ficar do lado da janela para ver a paisagem) e gritou:
   - Puxa vida!!!
   Todos olharam para ela, inclusive eu. Madama apontou para a janela e disse:
   - Olha lá embaixo.
   Eu olhei. E ela acrescentou: - Como nós estamos voando alto, moço. Olha só... o pessoal lá embaixo até parece formiga.
   Suspirei e lasquei:
  - Minha senhora, aquilo são formigas mesmo. O avião ainda não levantou vôo.

                                                                          Stanislaw Ponte Preta