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sexta-feira, 30 de julho de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O TRAJE



   Nunca nos lembramos desse nosso traje quotidiano que é a linguagem. Muitos a usam como trapos mas, se tomassem consciência disso, ligeiro tratariam de melhorar, caprichar, conseguir uma vestimenta mais adequada.
    Por que será que somos displicentes com esse instrumento tão nosso, o que mais empregamos, aquele que até crianças e analfabetos manejam a vida inteira?
    Talvez nos tenhamos acostumado demais com ele. É demasiadamente nosso, como um braço, um olho, e nunca chegamos a nos dar realmente conta de que esse braço é muito curto, o olho meio vesgo ou míope...
    Não falo na linguagem oral, nessa comunicação espontânea que obedece a leis próprias, que vão do menor esforço à coerção social. Falo da linguagem escrita, essa que os analfabetos não manejam, mas que muito doutor esgrime como se não soubesse além da cartilha...
    Nem precisamos procurar os mais ignorantes. Abre-se jornal, abre-se revista (de cultura também, sim senhores!) e os monstrinhos nos saltam aos olhos.
    Pontuação? Ninguém sabe. Vírgulas parecem derramadas pela página por algum duende maluco, que quisesse brincar de fazer frases ambíguas, pensamentos tortos, expressões esmolambadas.
    Verbos? "Deitei-vos", "intervido", "mantesse" são mimos constantes. Não há sujeito que concorde com verbo numa página de fio a pavio. Lá pelas tantas, um ouvido deseducado, um escriba relaxado solta as maiores heresias.
    E a ortografia? Acreditem ou não, ainda agora ouço universitários e professores afirmando que "acento, para mim, não existe mais!"
    Pobres alunos de tão desanimados ou iludidos mestres: lá vêm as crianças para casa trocando acentos como bêbados trocam pernas.
    Todas essas pessoas: estudantes, professores, jornalistas, intelectuais, morreriam de vergonha se fossem apanhados em público de cuecas ou trapos. Mas, olhe lá, a linguagem escrita de muita gente por aí não vai além duma tanguinha de Adão, e, muito mal colocada... deixa à mostra um bom pedaço de vergonha.

Lya Luft

Dados sobre a autora:
 Lia Fett Luft masceu em Santa Cruz do Sul(RS) em 1938. Além de escritora, também é tradutora. Escreve poemas, crônicas e romances. Publicou, entre, outros livros, Canções de Limiar, Flauta Doce, As Parceiras, A Asa Esquerda do Anjo, Reunião de Fámília, O Quarto Fechado e Perdas e Ganhos.


domingo, 25 de julho de 2010

Machado de Assis - Por que lê-lo



Márcia Lígia Guidin*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação



   Machado de Assis nasceu em 1839 e morreu em 1908. Foi um escritor do tempo de dom Pedro 2o. Por que, então, ler as obras de alguém que morreu há quase cem anos? Na verdade, poderíamos dar muitas razões acadêmicas e culturais: ele é o maior símbolo do realismo brasileiro, movimento que introduziu no país; fundou a Academia Brasileira de Letras, era genial, veio das classes baixas etc.
   Mas o fato é que a melhor razão as pessoas não dizem: ler Machado é muito engraçado. Suas histórias são irônicas, reveladoras de coisas que todo mundo sabe, mas não comenta... Elas falam de valores morais que todos criticam, mas têm.
   Quando alguém diz que Machado é "cético", é disso que está falando: esse ótimo escritor não acreditava nas boas intenções, na bondade, na generosidade, no amor romântico, na eterna lealdade.

Máscaras da sociedade

   Machado desmascarou com sutileza a falsidade de homens e mulheres de sua época de, sua cidade, de nosso país. Só que as situações e temas de que trata em sua obra são tão universais (amor, adultério, egoísmo, cinismo, apadrinhamentos, pobres e ricos, casamentos por interesse etc.), que nosso escritor pode ser lido em qualquer outro país. Ou seja, temos um escritor brasileiro (na época em que havia poucos), tão importante quanto Eça de Queirós, Dostoiévski, Flaubert.
   Machado de ASsis não imitava outros escritores, era original. A personalidade desse autor era tão irônica, tão observadora da realidade, que temos o riso de canto de boca a cada frase em que prestamos melhor atenção.
   Essa conversa de que só entenderemos Machado depois de adultos é besteira. O que existe é falta de ajuda de outros leitores (professores, pessoas mais velhas) para começarmos a ler e apreciar esse escritor universal.

O defunto Brás Cubas

   Por exemplo, um de seus mais famosos personagens, o solteirão Brás Cubas, do romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) resolve contar sua vida e seus amores depois da sua morte. Ele está entediado na eternidade, não tem o que fazer, é um defunto que vira autor (é, portanto, um defunto autor e não um autor defunto). Como Cubas quer ser original, diz que vai começar sua história narrando sua morte e não o nascimento. Moisés, o grande Moisés, começou pelo começo, diz ele; para ser original, então, vai começar pelo fim.
   Perceba: só esse início (a primeira página do romance) já é suficiente para notarmos que esse defunto quer debochar de nós, leitores. E ele vai em frente: diz que havia poucas pessoas em seu enterro, mas um amigo fez um belo discurso à beira de sua cova. Depois, como se não percebesse o que diz, afirma: "Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices" que lhe deixei. Nós, leitores, rimos ao ler a frase, pois está claro que o amigo só fez o discurso (aliás, ridículo, vá ler!) porque havia recebido uma pequena herança. Sugerir o contrário do que de fato diz (ou seja, construir a ironia) é uma especialidade machadiana.

Ironia e linguagem

   E nós continuamos a ler o tal romance; com um pouco de irritação com esse narrador estranho e arrogante, mas continuamos. Adiante, Brás Cubas, contando sua juventude (era na verdade um playboy rico e desocupado), apaixona-se por uma prostituta de luxo, com quem gasta muito dinheiro (do pai, é claro). Este ficará furioso, mas Brás Cubas, fingindo certa ingenuidade, nos conta: "Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis". Esta curta frase é maravilhosa, pois, sem denegrir a moça diretamente, o protagonista nos afirma que o amor dela era profissional, interesseiro, por dinheiro. Marcela não o amava: o autor construiu outra ironia, sugerindo que entendêssemos o contrário do que disse.
   E esse romance, tão famoso, vai por aí afora. É só diversão, embora, é claro, com um vocabulário do século 19, o que nem sempre é simples para nós. Na verdade, o tal Brás Cubas se exibe até no uso do vocabulário, ele é pedante. Se prosseguirmos na leitura, conseguimos rir muito, pensando que os vários episódios vividos naquela sociedade (por ele e por todos), são os mesmos nos tempos de hoje. E muitas ações sociais e morais são as mesmas... O pai de Brás Cubas, por exemplo, era um exibicionista. Dava festas muito ricas para 'fazer barulho', para aparecer na sociedade. Quanta gente faz isso ainda hoje, não? Existem até revistas especializadas nessa exibição de ricos e famosos...

Humor inglês

   Acabamos percebendo que as pessoas são as mesmas, que o mundo da hipocrisia e farsa social não mudou. Esta sensação é parte do pessimismo machadiano de que tanto nos falam os livros Não gargalhamos, apenas rimos em silêncio, com o canto da boca, para nós mesmos. E este sinal é o famoso humor inglês de que falam os estudiosos: as piadas, as ironias são todas assim, inglesas; o defunto diz o que quer, fingindo não dizer.

   Um dos momentos mais cruéis (sim, a ironia às vezes é cruel com os personagens) se chama "A flor da moita". Sabe por quê? Quando pequeno, Brás havia presenciado um beijo às escondidas que um poeta casado dava numa dama solteirona atrás de uma moita da mansão de seus pais. Pois bem, anos depois, conheceu a filha bastarda dessa mesma senhora, a menina Eugênia. Era linda, educada, pura, mas coxa (manca). Eugênia ficou então sendo "a flor da moita" porque concebida no amor ilícito. Por isso teria defeitos. Perceba que Brás é grosseiro, vulgar e deseducado. Mas quem vai punir um defunto? Quem?

Quem inventou Brás Cubas?

   Porém: Quem inventou Brás Cubas, que narra em primeira pessoa toda sua história? O verdadeiro autor da obra é Machado de Assis. Pensando melhor, vemos que esse Joaquim Maria Machado de Assis, fluminense, mulato, epilético, casado com Carolina, sem filhos, e muito famoso no Rio de Janeiro inventou um modo muito original de pôr na " boca" de um defunto inventado coisas que ele, Machado, queria dizer.
Quer dizer: o narrador Brás Cubas não é nem nunca será Machado. Mas Machado, usando seu personagem, ironiza a sociedade em que viviam os ricos no Rio de Janeiro.



terça-feira, 20 de julho de 2010

FELIZ DIA DO AMIGO!


O que é um verdadeiro amigo:


Disse um soldado ao seu comandante:
-"O meu amigo não voltou do campo de batalha. Meu comandante, solicito autorização para ir buscá-lo."
Respondeu o oficial:
-"Autorização negada!" "Não quero que você arrisque a vida por um homem que, provavelmente, está morto!"
O soldado ignorando a proibição saiu e uma hora mais tarde voltou mortalmente ferido, transportando o cadáver do seu amigo.
O oficial estava furioso:
-"Eu não lhe disse que ele estava morto?!"
-"Diga - me, valia a pena ir até lá para trazer um cadáver?"
E o soldado, moribundo, respondeu:
-"Claro que sim, meu comandante!
Quando o encontrei, ele ainda estava vivo e disse-me:
- Tinha a certeza que virias!"

(autor desconhecido)

"Um amigo é aquele que chega quando todos já se foram."

domingo, 18 de julho de 2010

30 anos sem o poetinha Vinícius De Moraes

    Há trinta anos Vinícius foi para uma outra dimensão. Diplomata, poeta, compositor e dramaturgo, ele era movido pela paixão e dizia que a coisa mais triste na vida de um homem era o desamor.
    Vinícius viveu o raro privilégio de ficar jovem com a idade. A aproximação com a música popular e com a cultura negra lhe rendeu o apelido de Poetinha, pois os críticos o considerevam um poeta de menor importância. A história de sua carreira encarregou-se de reverter esse conceito.
    O ultimo 09 de julho marcou os 30 anos sem Vinícius de Moraes e para relembrar esta data deixo aqui um poema musicado que muito marcou os meus primeiros anos de casada.

Vinicius De Moraes e Toquinho - Para Viver Um Grande Amor

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Poemas

             
            Varal de Poemas
Tema: A POESIA                        
Local: INSTITUTO DE EDUCAÇÃO GASTÃO GUIMARÃES - SALA DO 9º ANO MATUTINO

    Realizamos um varal de poemas durante a unidade. Vários textos poéticos produzidos pelos alunos do 9º ano foram expostos na própria sala de aula. Fizemos um círculo de leitura pelo varal e deixamos as produções para que os alunos dos turnos opostos pudessem apreciá-los. Para nossa surpresa, quando chegamos no dia seguinte, as produções estavam todas rasgadas. Por esse motivo, não tirei nem fotos do nosso trabalho.
   Fizemos uma avaliação oral dos textos e os alunos escolheram esses poemas como os mais apreciados:

                                                        UM HUMILDE COMEÇO

                                   Com o lápis na mão
                                   O horizonte começa a nascer
                                    Palavras vêm e vão
                                    Sem sabermos o porquê.

                                    A teoria fica de lado
                                    O coração tenta se abrir
                                     E pra entender o comunicado
                                    Basta apenas sentir.
                      
                                                  Autora; Raissa Ferreira Babolim

                                                                POESIA É COISA DE LOUCO

                                      Nunca entendi a poesia.
                                      Só sei que, ao lê-la,
                                      sinto profunda alegria
                                      ou eterna tristeza.
                                   
                                     Poesia é coisa de louco
                                     Ela mexe com o nosso eu
                                     com nossas emoções
                                     com os nossos sentimentos
                                      com nossas feridas

                                      Poesia para mim não é tudo
                                      Mas tudo se resume em poesia
                                      Isso é loucura? Não!
                                
                                      Amar é poesia.
                                      Sofrer é poesia.
                                      Viver é poesia.
                                      E morrer é poesia.

                                      Quisera eu não saber
                                       o que poesia.


Autora: Amanda Carolina Silva Santana


A IDADE DAS PALAVRAS

             A IDADE DAS PALAVRAS

                                                            Walcyr Carrasco

    Já cansei de ver gente madura falando gíria para parecer jovem. O trágico é que, em geral, a gíria é velha! Verbos, adjetivos e substantivos possuem maior permanência. Gíria é volátil.
Terrível ver uma senhora madura e plastificada dizendo:
   - Eu sou prafrentex!
   O termo foi usado lá pela década de 60 para dizer que alguém aceitava compartamentos mais ousados, tipo viajar no fim de semana para a praia com um grupo de amigos, o máximo de liberdade imaginável até então. É passado. Assim como as variações para falar de homem bonito. Houve época que era "pão", lá pelos anos 80 virou "lasanha". Agora se usa gato, se não estou atrasado. Volta e meia noto uma cinquentona exclamar à passagem de algum atleta;
   - Ai que pão! 
   Esse é o mal das gírias. Marcam a juventude de cada um. O tempo passa. Fica difícil mudar o modo de falar. Às vezes ainda ouço um "é uma brasa, mora" usado por Roberto Carlos nos tempos do programa Jovem Guarda, início dos 60. Lembro do sucesso de "boko moko", criado por uma marca de refrigerante para identificar quem era cafona e não tomava a tal bebida. Caiu na boca do povo. Cafona vale? Ou devo dizer "out", como na década de 90?
   As palavras expressam sua época. Certa vez estava escrevendo uma novela passada nos anos 20 e coloquei a expressão "vou tirar você do meu caderninho". Meu pesquisador me orientou:
   - Naquele tempo poucas pessoas tinha telefone em casa. Não se falava assim.
   O tal "caderninho" correspondia à agenda telefônica. Só passou a ser comum quando o aparelho se tornou mais popular.
   Para escrever outra novela de época, passada no século XVIII, eu recorria ao raciocínio puro e simples para definir o modo de falar. Descobri que "comer a tripa a forra" tinha a ver com o período da escravidão. O negro liberto era "forro". Deduzi que significava comer à vontade.
   Outro dia, vendo uma reportagem de televisão, observei uma família simples com o telefone de teclas. Todo mundo tem. Até algum tempo atrás se discava o telefone. Hoje se tecla um número.
   Reconheço. Tenho saudade de certos termos. Lembro do meu irmão mais velho dizendo "que carro joia!". E "olha o broto!" Ou dos amigos dos anos 70, quando fiz faculdade. Frequente era ouvir "tou numas com ela" equivalente, guardadas algumas proporções, ao ficar de hoje em dia.
   Que adolescente aceitaria hoje ir a um "mingau dançante"? Vão para a balada, para a "night". Aliás, a maioria foge de mingau e de qualquer delícia que engorde!
   Muita gente odeia gíria. Alguns a consideram um dialeto capaz de estraçalhar a língua. Esquecem-se de que, no seu tempo, também a usavam. Não é fácil acompanhar a sua evolução. Outro dia ouvi:
   - Eu deletei aquele sujeito da minha vida.
   É a versão mais atual para "tirei do meu caderninho". No computador, deletar é eliminar. apagar. Também se fala tranquilamente:
   - Eu estava casado, mas não estou mais.
   Não tem nada a ver com casamento formal, necessariamente. significa que o rapaz em questão viveu um relacionamento forte. Possivelmente, nem moravam sob o mesmo teto.
   Eu me confundo: não sei se ainda se fala "hipe" para indicar algo que no passado foi "in". Ou que alguém é "fashion" para dizer que está "nos trinques" como nos anos 80. Falar com um jeito antigo é pior do que botar calça boca de sino, ícone dos anos 60.
   Não há corte de cabelo, Botox ou plástica que resista. Gíria velha denuncia a idade mais do que um festival de rugas.

VEJA SP, Edição 1998, 07 de março de 2007, p. 130